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LIÇÕES DO FUTEBOL CARIOCA EM 2020 PARA O FUTURO

POR - MARCELLO COHEN

São muitos os fatos que merecem debate com o final do Campeonato Brasileiro de 2020. Os quatro grandes clubes do Rio se encontram profundamente divididos. A disparidade econômica do Flamengo, refletida em qualidade dos jogadores e resultados, já não é novidade. Ao contrário, foi uma temporada decepcionante até para o que se esperava. Fracasso na Copa do Brasil e Libertadores. Um iminente Título Brasileiro, sempre algo enorme, mas muito mais suado do que o necessário em disputa nivelada por baixo. Previsível conquista Carioca e bom desempenho nas duas Recopas. Ainda com ressalvas, segue em patamar muito superior em termos de resultado.

            Fora Flamengo, o que podemos tirar de seus três rivais históricos? A resposta está em muitas lições. Para começo de conversa, são três times com enormes dificuldades financeiras. É um tremendo desafio administrativo, com a soma de todos os problemas gerados pela pandemia, a manutenção do futebol em alto nível em tal cenário. Dois deles, Vasco e Botafogo, deram aulas e palestras de como não se fazer a brincadeira. Administrações péssimas no passado e presente colocam ambos, novamente, na 2ª divisão do futebol brasileiro.

            São dois casos dramáticos. Queda de faturamento no radar, salários atrasados, problemas enormes na montagem de elenco, escolhas erradas em contratações e demissões de técnicos. Uma soma trágica que apresenta resultado repetido para ambos. Nenhuma das duas torcidas aguenta outra queda. São três de um, quatro de outro. Todas nos últimos 20 anos. Para o Vasco, são quatro nos últimos 12, que resulta em trágica conta. Como agravante, temos algo inédito. Nunca o futebol carioca foi representado por apenas dois clubes na 1ª divisão. Nunca tivemos a experiência que teremos no Brasileiro de 2021. Apenas um clássico carioca em cada turno.

            Isso posto, quais foram as diferenças de Flamengo e Fluminense? O Flamengo, todos sabem. Time mutilado no passado pelas mesmas administrações trágicas. Segurou seu período de vacas magras com o básico – times que deixaram sempre o clube na 1ª divisão. Revolução administrativa a partir de 2013, times limitados até 2016 e condições de botar as contas em dia. A partir dali, investimentos e resultados. Podemos ver um princípio de caminho semelhante no Fluminense.

            O clube das Laranjeiras tem situação financeira muito mais próxima dos dois rivais rebaixados do que do atual “primo rico”. Com pouco, deu aula de como gerir um time na 1ª divisão e ser recompensado em campo. O resultado de vaga na Libertadores não poderia ser sonhado nem pelo mais otimista torcedor. Foi fruto de escolhas da diretoria, dentro de uma realidade financeira, de nomes a dedo. Para começar, Odair Hellmann é um treinador ótimo para esse tipo de projeto “bom, bonito e barato”. Consegue fazer um time organizado dentro de tal realidade. Se mostrou muito pouco ousado em confrontos importantes pelo Inter em 2019, mas para um material humano mais enxuto, é perfeito. Sua transferência para o mundo Árabe poderia botar tudo a perder. O Fluminense preferiu deixar o auxiliar Marcão tocar o barco. No começo, houve uma queda clara. Depois, seguiu com um desempenho muito bom e terminou com a vaga.  

            No time, mescla de juventude e experiência. Fred e Nenê foram lideranças incontestáveis. Matheus Martinelli, Lucas Calegari, Luis Henrique, John Kennedy, Nino e Lucas Claro são, entre crias da base e contratações de análise criteriosa no mercado, peças-chave. Com essa turma, o clube alcançou resultados sem comprometer finanças. Se seguir tal caminho, pode dar passos maiores num futuro de contas em dia.

            O exemplo para a muito difícil reconstrução do zero que Vasco e Botafogo precisam está aí. Não é contratando qualquer um sem critério, alguns medalhões por nome e comprometendo ainda mais suas contas que se encontra o equilíbrio. As quedas são trágicas para ambos, mas o único caminho está num trabalho sério dos que chegam agora para administrar os clubes. O futebol carioca não pode nunca mais ter apenas dois times na 1ª divisão. Exemplos de sucesso estão na vizinhança. Baste tentar trilhar...