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FLAMENGO DE 2020 VOLTA A FLERTAR COM ANTIGOS ODORES 

POR: MARCELLO COHEN

Ainda é cedo para mensurar o que foi 2019 na história do Flamengo. Na minha avaliação, perde apenas para 1981. Comemorar título Brasileiro na ressaca da Libertadores não acontece todo dia. Aquele Diego Alves – Gabigol, devidamente regido por Jorge Jesus, não tem pares nos últimos 25 anos por aqui. O que esperar em termos de manutenção em 2020?

            A princípio, estava tudo fluindo. Treinador mantido, elenco com reforços importantes – motivados principalmente para que o time nunca mais precisasse usar um Lincoln numa final de Mundial -, e apenas uma perda do time titular. Vale lembrar, perda numa oferta irrecusável sob diversos aspectos e reposta com dois destaques da posição no ano anterior.

            A coisa começava bem. Maracanã lotado até em enfadonhos jogos de Carioca, mais títulos, bom futebol e confiança na mesma pegada de 2019. Até que o mundo apertou stop e cada um foi para sua casa. No forçado retorno, pelo qual a diretoria fez forte lobby com autoridades, já se via que a coisa não andava bem. O time tinha datas contra menores e uma final de Taça Rio, seguida por final do Estadual, contra o Fluminense. Jorge Jesus claramente tentado com a proposta de volta para casa, defesa concedendo chances e mais chances para o rival, jogos muito abaixo do que o flamenguista estava acostumado. Para piorar, o comandante de fato decide largar o time pouco depois de complexa renovação de contrato.

            O momento da troca era semelhante à ocorrida um ano antes. Agora o fato de Jesus salvar a terra arrasada deixada pelo antecessor, sob diversas peculiaridades, não é simples de se repetir. A época não ajuda nem um pouco. Para começar, o tiro tem que ser certeiro. Não existe chance para errar na contratação de um profissional renomado estrangeiro. A negociação é longa e a adaptação mais ainda. Infelizmente, Domènec Torrent não era o nome para manter o Flamengo em outro patamar.

            Problemas físicos já se apresentavam na pausa entre Estadual e Brasileiro. Foram 11 dias de folga entre técnicos. Isso segue recorrente. Some calendário alucinante e erros no tipo de treinamento e preparação do catalão. Contusões aos montes e demora na recuperação. Aquela eficiência que contrariava a lógica foi para o espaço.

            Outro problema era o sistema defensivo. O Flamengo passou a colecionar goleadas. Não as favoráveis de 2019, mas contra. Fruto de uma comissão técnica que não era apta na montagem de um sistema eficiente e jogadores que rendem muito abaixo da expectativa. A coisa em termos de resultado forçou a troca de comando. Não dava tempo para passar semanas negociando com gringo. Era olhar para o Brasil, ligar na segunda e esperar o cara na terça. A escolha foi correta. Rogério Ceni fazia um trabalho magistral no Fortaleza. Olhando em volta, era o que tinha para hoje. A chance de achar um novo JJ já tinha passado na vigência da temporada.

            Ceni de cara identificou fortes problemas físicos e emocionais. Em meio à sequência de decisões duas vezes por semana, não conseguia fazer tudo que queria. Ainda assim, desde a 1ª escalação, promoveu escolhas muito duvidosas na composição do setor mais delicado do Flamengo atual. A dupla de zaga. Leo Pereira e Gustavo Henrique são hoje as últimas opções. Apenas com Rodrigo Caio, Natan, Noga e Thuler fora de combate é possível cogitar a presença da dupla. As falhas são muitas, não existe condição para tal.

            Infelizmente, passou muito por isso o fim do sonho de tricampeonato das Américas. Rodrigo Caio precisou voltar com urgência. Gustavo Henrique passou na frente de Noga. O Flamengo muito mais arrumado, que criava chances perdidas aos montes e controlava com tranquilidade o jogo, viu a dupla botar tudo isso a perder. Um, sem ritmo, cometeu duas faltas imbecis de cartão amarelo e foi expulso. Sem deixar o cadáver esfriar, gol do Racing na falta da expulsão – era o cartaz “Hoje tem falha do Gustavo Henrique” erguido novamente. A partir daí, Ceni mexeu muito mal. Matou o meio e a coisa virou chuveiro no pagode. A camisa empatou o jogo com o espírito de Rondinelli. Não foi o suficiente.

            Além dos problemas defensivos, o Flamengo de hoje também apresenta dois graves problemas ofensivos. Desperdício homérico de oportunidades e péssimo desempenho em cobranças de pênaltis. Ambos foram protagonistas da eliminação. O adversário cobrou com perfeição todas as suas penalidades. Diego chegou perto de operar dois milagres, mas impossível colocar na sua conta. Já o Flamengo, até melhorou com Pedro e Felipe Luiz. Já Gerson, que acabou entrando na marra, e Arão...muito longe disso.

            O que resta em 2020? Rogério terá muito tempo para consertar tudo isso. Os problemas são muitos. A disputa pela taça do Brasileiro é em baixíssimo nível. O Flamengo está no bolo e tem muita chance de, jogando 60% do futebol de 2019, sair com seu oitavo título nacional. Vamos ver se os profissionais serão capazes. Voltar aos tempos do investimento e cheirinho é que não pode ser aceito.